quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Meu coração

   No fim, desculpe a literatura, é tudo entre nós e o nosso coração. Depois do dito e do feito, depois da paixão e da razão, depois da vida das células e da vida social e da vida cívica e das idas e das voltas, e da História e da biografia, e do que os outros fizeram conosco e do que nós fizemos com os outros, é tudo entre nós e ele. Segundo fora. Nós e ele. A única conversa que vale, a única intimidade que conta.
   O coração não tem nada a ver com nada, fora a sístole e a diástole e a sua fisiologia medíocre. Ele nem nos daria conversa, se não dependesse de nós, se não precisasse da embalagem, dos terminais e de alguém que cuide dele. tudo que lhe atribuem, do mais romântico ao mais calhorda, é falso. Trata-se de um mero músculo, e de um músculo egoísta, que só quer saber da sua própria sobrevivência. Da qual, por uma cruel coincidência, depende a nossa.
   Fala-se do "time do coração". Mentira. O coração não tem time. O coração não se interessa por futebol. Só hoje, por exemplo, o meu se deu conta de onde estava. Paris, Nantes, Marselha ou qualquer outra cidade, é tudo o mesmo para ele, desde que ele tenha um lugar seguro onde poss bater e cuidar da sua vidinha. Mas de repente ele se deu conta e pediu satisfações. Para onde eu o tinha trazido?
   Expliquei. A França, a Copa, o Brasil, os jogos, a beleza dos jogos...
   Meu coração não quis ouvir falar da beleza dos jogos. Ele não tem nenhum senso estético. Quis saber que história era aquela do morte súbita.
   - É uma maneira nova de decidir as partidas que acabam empatadas. Há um prorrogação e o primeiro gol quem marcar ganha.
   Meu coraçao nao quis acreditar.
   - Quer dizer que, se esse time pelo qual você torce, como é mesmo o nome?
   - Brasil.
   - Quer dizer que se o Brasil empatar com algum outro time, tem prorrogação com morte súbita?
   - É...
   - Você sabia disso quando me trouxe pra cá?
   - Sabia.
   - Você deliberadamente me trouxe a um evento em que eu posso parar de repente, mesmo não tendo nada a ver com isso? Não era para ser um campeonato de futebol, um esporte, um divertimendo, enfim, nada que me dissesse respeito?
   - Desculpe. Eu tentei substituí-lo pelo distanciamento crítico, mas...
   - Só me diz uma coisa. Se a prorrogação terminar sem que ninguém marque o gol, o que acontece?
   - Aí decidem nos pênaltis.
   - Me leva pra casa.
   - O quê?
   - Me leva pra casa imediatamente. E pare de me envolver nos seus divertimentos. Você parece que não tem coração.
   - Mas nada disso vai acontecer com o Brasil. Prorrogção, pênaltis, nada disso.
   - Quase aconteceu contra a Dinamarca!
   - É, mas...
   - Me tira daqui!

Nenhum comentário:

Postar um comentário