quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Vermelho

    Paulinho da Viola descreveu a primeira vez que viu desfilar a Portela. Aquele azul que passou em sua vida não era do céu, não era do mar. Era um azul só delas, da Portela e da sua lembrança. Um azul exclusivo, inexplicável, único, que nunca mais seria o mesmo. Mas não era o azul que jamais se repetiria - era a sensação de vê-lo pela primeira vez. A mesma sensação que eu tive na primeira vez em que fui a um jogo de futebol, um Grenal, e vi entrar em campo o Internacional. O vermelho da sua camiseta não era do sangue, não era do fogo. Eu nunca tinha visto um vermelho assim antes, e nos sessenta anos seguintes nunca o vi da mesma maneira outra vez. Um vermelho só reproduzível na memória. Um vermelho inaugural, inédito, como o de um rio de lava no começo do mundo. E o meu coração se deixou levar.
    A família tinha voltado a Porto Alegre depois de dois anos passados nos Estados Unidos, e eu, com nove anos, precisava escolher um time como forma de reintegrar nos hábitos da terra. O Inter era o time mais em evidência no estado na época. Ganhava todos os campeonatos e era apelidado de Rolo Compressor, tal a sua vantagem sobre os outros. Escolhi o time vencedor. Mas não foi só isso. Nos Estados Unidos, eu tinha contribuído para a vitória das forças aliadas contra as forças do Eixo, matando japoneses e alemães aos milhares nos meus jogos de guerra solitários. O Grêmio, naqueles tempos, só aceitava jogadores brancos, e sua torcida era quase toda branca. Não escolhi torcer pelo Inter para continuar defendendo a democracia por outros meios, sem minha metralhadora, nem por qualquer manifestação precoce de consciência social - mas que era bom torcer pelo time dos negrinho contra o time dos alemão, era. Ainda mais que os negrinho ganhavam sempre.
    A política racial do Grêmio acabou com a contratação do Tesourinha, que fora o maior ídolo do Internacional e meu maior ídolo pessoal. Hoje os times e as torcidas de Inter e Grêmio se equivalem em variedade racial e social. Mas, quando fui ao meu primeiro Grenal, Tesourinha ainda era do Inter (depois passou pelo Vasco) e o Grêmio ainda era o time dos alemão. Mas foi tamanho o deslumbramento com minha primeira visão das camisetas vermelhas entrando em campo que esqueci um fato importante daquele jogo: o Grêmio ganhou o Grenal e foi campeão de 1946. Sempre convivemos assim: uma torcida esquecendo ou tentando diminuir as glórias da outra. Nunca reconhecemos o campeonato do mundo vencido pelo Grêmio em Tóquio, por exemplo. Era outra competição, outro mundo. Tóquio passa a valer alguma coisa a partir de agora.
    E já posso imaginar aquele vermelho entrando em campo, em Tóquio. Um vermelho como nenhum outro, um vermelho primal como o das minhas lembranças de menino, mas inaugurando outra história.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O time do boteco

    A cena se incorporou ao folclore do futebol brasileiro. Escolhido para ser o técnico da seleção brasileira que disputaria a Copa do Mundo no México em 70, João Saldanha convocou a imprensa e anunciou o time. Não quem seria convocado, não quem seria experimentado - o time, os onze. Apenas repetiu, oficialmente, o que diria numa mesa de bar, se lhe pedissem a sua seleção. Outros na hipotética mesa escolheriam outras seleções, mas ninguém hesitaria. Todos teriam um nome para cada posição, e uma seleção pronta. A do Saldanha só ficou na história porque, com a mesma naturalidade com que a anunciava no bar, anunciou para o mundo, como técnico. Dando inveja, claro, a todos os outros escaladores de boteco do país, que tinham a sua seleção óbvia mas não tinham o poder de convocá-la.
    Muitos mitos da seleção de 70 não resistiriam ao tempo, ou foram desmentidos ou foram convenientemente esquecido. Saldanha disse ou não disse que cortaria o Pelé porque o Pelé era míope? Largou a seleção porque os militares no poder, a começar pelo presidente Médici, estavam se intrometendo demais no seu trabalho, ou não foi bem assim? Não importa. O que deixou mais saudades - porque nunca tinha acontecido antes e nunca mais se repetiu - foi a simples anunciação como primeiro ato da sua regência, do time que ele tinha na cabeça, do goleiro ao ponta-esquerda. O time do Zagallo que ganhou no México não foi o do Saldanha, mas isso também não interessa. Entre o boteco e o fato, entraram as circunstâncias, essas coisas serpentinosas em que a gente vive se enrolando.
    O triste é que hoje não existe mais a escalação espontânea. A escalação de boteco nunca foi tão mal informada, e irrelevante. O futebol mudou no campo (nem ponta-esquerda existe mais) e fora dele. Ninguém consegue acompanhar o que os jogadores brasileiros fazem no exterior para merecer a seleção - ou saber que interesse oculto existe por trás de uma convocação. O Brasil de 70, com Médici e tudo, era um pouco mais íntimo. E na falta do time mais ou menos óbvio, na falta do time do boteco, o que se vê é isto: uma seleção em constante experimentação, com um elenco para cada ensaio.
    Não se deve valorizar demais a sabedoria popular no futebol. Muitas vezes os favoritos do público não convêm à seleção, e há exemplos recentes de implicâncias do público que deram certo. Mas a escalação do boteco valia pelo menos como uma referência. Bem ou mal, o boteco sabia. Hoje, o boteco nem desconfia.

sábado, 29 de outubro de 2011

Sem bola

    Nada melhor para discutir futebol do que a ausência do futebol. Isto é, do que aqueles períodos em que tudo é preparação e expectativa, tudo é especulação, e portanto tudo é teoria. Quando começa o futebol, as especulações passam a correr o risco de desmoralização instantânea, e nenhuma tese definitiva está livre de ser destruída por uma bola espirrada. É quando não há o perigo do desmentido pela prática que a teoria prospera. E, assim como os jogadores precisam aprender a jogar sem a bola, comentaristas têm que saber comentar sem a bola. Inclusive para ter assunto quando a bola está parada.
    Acho que o debate tático melhorou desde os tempos em que tudo se concentrava na figura do "cabeça de área", que nem chama mais assim. Quem justificava a presença de um "cabeça de área", hoje volante de contenção (pelo menos o nome melhorou), na seleção era considerado defensivista, retranqueiro e até antibrasileiro, na medida em que queria desfigurar o nosso alegre futebol, europeizando-o. Quem desprezava o "cabeça de área" era chamado de romântico, um dos piores epítetos no vocabulário do prolongado debate. Felizmente, nenhum treinador brasileiro nos últimos, o quê?, 40 anos - nem "ofensivistas" notórios como o Telê Santana - prescindiu de um jogador cuja função na seleção, disfarçada ou não, era a de guarda avançada da grande área. E a pressão contra o "cabeça de área", sempre identificado como sinônimo de "cabeça de bagre", não era pouca. Ouvia-se muito de torcedores entusiasmados que bastava escalar cinco craques na frente, o "dream-ataque" do momento, para que o resto da seleção se tornasse supérflua, a começar pelo "cabeça de área". Era a teoria do levamos quatro mas fazemos sete.
    Hoje um Emerson ainda provoca dúvidas como as que provocaram Batista Dunga, por exemplo, e na base dessa discussão sobre usar ou não o Robinho com o sacrifício de alguém da contenção também há vestígios do velho debate. Mas a mecânica do jogo e as funções táticas mudaram, a discussão se sofisticou e, se realistas e românticos ainda não se reconciliaram completamente, pelo menos não brigam mais por uma posição só.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A síndrome

    Vanderlei cumpriu a promessa. Anunciou que o time seria ofensivo e eu, pelo menos, me senti ofendido pelo time. Mas é quase uma danação: escala-se o time para a promoção de imprensa, para a excitação da torcida e para a motivação de todos, e na hora dá tudo errado. Mesmo quando dá certo, a realidade nunca é igual à expectativa. Nenhum "ataque de sonho" anunciado na véspera funciounou como o anunciado, até hoje, no Brasil. Todos os ataques de sonho de que se tem memória ganharam essa classificação depois, na lembrança. Alguns até começaram a vida sob suspeição. Tostão e Pelé e Gerson e Rivelino no mesmo time não podia dar certo, lembra? Hoje sonhamos com um ataque como aquele.
    O fato é que a notícia que o time vai ser mais ofensivo (com tudo que isso implica: gols, espetáculo, alegria, o verdadeiro futebol brasileiro etc.) geralmente é prenúncio de decepção. Existe uma tentação antiga que ronda os treinadores brasileiros, a síndrome dos dois centroavantes. Chega o momento numa partida difícil em que o treinador atira todos os planos para o ar e manda entrar o segundo centroavante. A lógica primária é botar mais gente dentro da área, e seja o que Deus e a bola espirrada quiserem. Significa o abandono da organização e de qualquer pretensão tática e poucas veze dá resultado. A escalação de um time "ofensivo" é uma espécie de racionalização da síndrome. O time já começa o jogo num clima de dois centroavantes, entregue à inspiração instantânea de cada atacante. Até agora ninguém, muito menos o jogador e o técnico, pode dizer qual era a função do Ronaldinho no jogo de quarta contra o Uruguai, por exemplo. Suas ordens eram de entrar em campo e ser ofensivo. Ninguém, aparentemente, lhe disse como.
    Uma das obviedades do futebol, que nunca é demais repetir, é que o número de atacantes é um dado apenas jornalístico, pois dtermina como será publicada a escalação. O importante não é quantos na frente, mas como - a mecânica da chegada. E isso se combina, não se improvisa na hora.

Infantilidades

    Só o futebol permite que você sinta aos 60 anos exatamente o que sentia aos 6. Todas as outras paixões infantis ou ficam sérias ou desaparecem, mas não há uma maneira adulta de ser apaixonado por futebol. Adulto seria largar a paixão e deixar para trás essas criancices: a devoção a um clube e às suas cores como se fosse a nossa outra nação, o desconsolo ou a fúria assassina quando o time perde, a exultação guerreira com a vitória. Você pode racionalizar a paixão, e fazer teses sobre a bola, e observações sociológicas sobre a massa ou poesia sobre o passe, mas é sempre fingimento. É só camuflagem. Dentro do mais teórico e distante analista e do mais engravatado cartola aproveitador existe um guri pulando na arquibancada. E esta nossa infantilidade compartilhada, de certa forma, redime tudo. Até o Eurico Miranda.
    E também é a culpada pelo futebol profissional no Brasil ter vivido, até hoje, nesta doce irresponsabilidade sem cobrança e sem castigo. Nenhum clube de futebol precisa ser regido de uma forma legal e contábil porque nenhum existe no mundo real, adulto e fiscalizável. Todos contam com a tolerância carinhosa dedicada a crianças brincando de gente grande, ou de gente grande sendo criança. E a brincadeira fica cada vez maior e mais longe do controle. Nos últimos anos o comércio de jogadores de futebol, incluindo a repartição da propriedade do passe entre cluber e empresários e investidores, transformou-se num dos mais rentáveis negócios clandestinos do mundo, envolvendo trampas e tramoias que só podem ser imaginadas, já que muito pouco se torna público.
    É muito saudável, portanto, que finalmente se investigue seriamente os negócios do futebol e se exija comportamento adulto dos seus responsáveis e correção fiscal e transparência dos clubes.
    Desde, claro, que seja dos outros e não do Internacional ou do Botafogo.

Do baú

    O futebol é, basicamente, o mesmo desde uqe foi inventado. Não há muito o que fazer para mudá-lo, fora detalhes. Com a lâmina de barbear acontece a mesma coisa. O modo de jogar futebol pode ser completamente diferente de hoje do que era há anos, como a aparência dos aparelhos de barbear de hoje pouco tem a ver com a da época em que Mr. Gillette inventou sua prática lâmina, mas a ideia fundamental permanece inalterada, e inalterável. E, no entanto, todos os anos os fabricantes de aparelho de barbear precisam apresentar um produto novo. Todos os anos os departamentos de marquetchim pedem aos departamentos de pesquisa que reinventem o aparelho de barbear, para terem o que anunciar. Duas lâminas, três lâminas, cinco lâminas, lâminas flutuantes, lâminas convergente, lâminas divergentes, lâminas musicais - qualquer coisa para que o aparelho do ano passado fique obsoleto e a novidade seja irresistível. Da mesma forma, todo técnico, quando assume um novo time, deve trazer a sugestão implícita de que vai reinventar o futebol.
    As razões dadas para trocar de técnico são muitas. O técnico que sair perdeu o ambiente, perdeu a confiança, perdeu a razão - e é sempre mais fácil trocar um técnico perdedor do que um time inteiro. Mas a razão verdadeira é o desejo secreto de que o novo técnico reúna os jogadores no meio do campo, abra sua sacola e tire lá de dentro - tará! - um outro jogo. Um futebol inédito. Um futebol que ninguém mais tem, e, portanto, invencível. O milagre ainda não aconteceu, mas todo técnico de futebol é uma promessa do futebol reinventado. Por isso eles levam vidas de homens santos, perambulando pelo país entre guaridas temporárias, sabendo que é pouco o tempo entre a adoração e o desmascaramento, a adulação e o apedrejamento. Ou ele é um salvador ou é um charlatão. Não tem o recurso do meio-termo.
    Nem o recurso do bom-senso. O novo técnico não pode dizer para o time e a torcida que o futebol é um aborrecido jogo de repetição e paciência, decidido, muitas vezes, por um ponta-esquerda que nem foi escalado, o Fortuito. Não pode enfatizar que o futebol precisa ser jogado com o pé, sabidamente um órgão tão dispersivo e difícil de controlar que poderia ser do governo. Nem lembrar o fato de que o adversário colocará em campo, perversamente, um time com o mesmo número de jogadores que também querem a bola, só para atrapalhar. Seria a mesma coisa que um fabricante de aparelhos de barbear fazer uma cara campanha publicitária para anunciar nada de novo. Dizer que não há mais o que fazer, que o aparelho de barbear chegou ao limite das suas possibilidades de mudança, que o deste ano será sensacionalmente igual ao do ano passado.
    Impensável.

O técnico

    Todo brasileiro é um técnico de futebol frustrado. Deus é brasileiro. Logo, Deus é um técnico de futebol frustrado? Como Deus tudo pode, é provável que Ele seja o verdadeiro e eterno técnico da seleção, e os mortais que assumem a função apenas suas fachadas. Todos os técnicos da seleção brasileira seriam, na realidade, prepostos de Deus, o que explica o seu ar arrogante e a sua recusa em aceitar nossos palpites. Só a certeza de terem uma delegação divina explica que os técnicos da seleção ignorem, sistematicamente, os conselhos dos que entendem de futebol mais do que eles – nós – e se julguem os donos da verdade. Nenhum ainda confessou que recebe orientações diretamente de Deus, mas isso está implícito na sua soberba.
    Que Deus é o técnico vitalício do Brasil pode ser provado, e não apenas pela quantidade de Copas que vencemos e pela nossa superioridade incontestada no futebol. As próprias derrotas do Brasil são da responsabilidade de Deus, para não dar na vista e manter a ficção da sua neutralidade. E Deus, nas alturas, está na posição que todos os técnicos consideram a ideal para ver o jogo. Mas como é onipresente pode estar lá em cima e falando com o seu auxiliar do lado do campo ao mesmo tempo, sem a necessidade de walkie-talkie ou celular.

Para que serve o futebol

    Não sei por que o MH – Marciano Hipotérico – insiste em voltar ao Brasil e ao meu texto, pois aqui ele só encontra perplexidades. Por mais que tente, o MH não consegue nos entender. Ele, que é verde, ficou azul de espanto quando lhe contei que, no país do futebol, o futebol era um mau negócio. Mas como, perguntou, agitando as antenas. Uma população deste tamanho, todo o mundo louco por ele, nenhum outro esporte profissional de massa disputando mercado com ele, um clima que permite a sua prática o ano inteiro – e ele só dá lucro para a CBF? Não consegue sustentar nem uma indústria de revistas especializadas como tem na Espanha e na Itália (ou, para não ir tão longe, na Argentina)? Os seus clubes estão falidos, os seus melhores jogadores são exportados?
   Em Marte, contou o MH, apesar da ausência de grama e da fraca gravidade, que desaconselha tiros de meta para a bola não entrar em órbita, o futebol dá dinheiro. Mesmo se houvesse mercado para jogadores com três pernas na Europa, nenhum marciano sonharia em ir jogar lá. Nem no Real Madrid. Por que no Brasil não acontecia o mesmo? Achei melhor mudar de assunto e contar que outro problema do Brasil era a falta de terra para assentar agricultores. Aí o MH ficou roxo de indignação, me acusou de estar gozando com ele, entrou na nave que estacionara no telhado e foi embora.
   Agora voltou, não com uma solução, mas com uma tese. Para ele, o problema básico do Brasil é o mesmo da agricultura quando uma safra excede a capacidade de escoamento. No nosso caso, uma superambudância de talento produzido não tem colocação e, literalmente, transborda. Mesmo os nossos maiores talentos teatrais não sobrevivem naturalmente, de bilheterias, sem subsídio ou patrocínio. Cinema, a mesma coisa. De literatura ninguém vive. E como não se pode diminuir a produção de talento como se diminui a de soja, por mais que tentem emburrecer o país, o problema só cresce. Portanto, mês disse o MH, está claro pra o que serve o futebol profissional no Brasil, e por que persiste mesmo sendo um fracasso permanente. Ele existe para representar o grande desperdício nacional, o grande paradoxo de um país que não se aproveita. A função do futebol, no Brasil, é ser metáfora.
   Dito o quê, o MH partiu outra vez, pois não é doido de ficar aqui,

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A era dos centauros

   O xadrez é um jogo violentíssimo. Parte do tempo em que parece estar pensando no seu próximo lance o jogador de xadrez se dedica a imaginar o que faria com o adversário e sua família se não precisasse se controlar. Coisas envolvendo machadinhas e óleo fervendo no ouvido. A única coisa comparável ao xadrez em violência é o polo jogado por mongóis, em que dois times a cavalo disputam a posse de um cabrito através de vastas extensões de estepes, muitas vezes arrasando cidades inteiras no caminho. O polo mongol é o xadrez sem o autocontrole.
   Outro jogo violentíssimo é o tênis. Pouca gente sabe que na sua forma original o tênis consistia em dois jogadores se dando raquetaços até um morrer ou pedir água. Só muito depois os ingleses inventaram a bola e a rede para manter os jogadores separado, mas o instinto assassino de parte a parte continua o mesmo. Já um esporte civilizado é o boxe. Não há notícia de jogadores de xadrez ou de tênis se abraçando efusivamente depois de uma partida como acontece com lutadores de boxe, que continuam amigos depois da luta, mesmo porque passaram a maior parte do tempo abraçados.
   E o futebol? É uma mistura de xadrez e de boxe. Na defesa um time de futebol depende da exata colocação das suas peças, como no xadrez, essas peças distribuídas com aparente racionalidade devem sugerir algo de polo mongol na sua truculência e no seu poder de intimidação. No ataque, o futebol depende do mácimo aproveitamento de brechas, como no boxe. Ajuda se os jogadores de defesa odiarem a Humanidade como os melhores xadrezistas e os de ataque aceitarem ser golpeados sem ressentimentos, como os boxeadores. O vocabulário de um bom atacante está cheio de palavras que jamais devem entrar na vida de um defensor, a não se em pesadelos: surpresa, criação, fortuito, invenção. Não se imagina sobre o que defensores e atacantes conversam fora de campo. Sobra futebol certamente não é. Um não reconheceria o esporte do outro.
   O meio-campo é onde as coisas se decidem no futebol porque é ali que se dá a metamorfose: bons meio-campistas são os que entram nessa área mágica enxadristas e emergem, lá na frente, boxeadores. Todo time precisa ter pelo menos um centauro, metade cavalo mongol, metade poeta, no seu meio-campo. Já que Tostão decretou o fim do volante de contenção clássico, o ex-cabeça de área, no nosso futebol, começa a era dos híbridos de luxo: jogadores que combinem a força bruta do xadrez com a dexteridade intelectual do boxe.

A primeira

   Não sei de que material é feita a bola de futebol, hoje. Quando ganhei a minha primeira bola, ela era feita de couro. Tinha uma câmara dentro, como nos pneus. Enchia-se a câmara de ar com uma bomba de bicicleta - ou com os pulmões mesmo, naquele tempo se tinha fôlego - e ajeitava-se o mamilo da câmara dentro do couro da melhor maneira possível, antes de amarrar os cordões da bola, que tinham cadarços como as chuteiras. Minha primeira bola tinha o tamanho regurlamente, era uma número cinco autêntica. Os locutores de rádio chamavam a bola de futebol de "a número cinco", além de "o esférico", "a pelota" etc. O couro da bola tinha cor de couro, ou então era um pouco mais vermelho. A bola pintada de branco só era usada em jogos noturnos, não era a verdadeira. O couro reluzia.
   Hesitava-se muito antes de dar o primeiro chute na bola nova, pois o couro começaria a ficar arranhado no primeiro toque. Era um dilema, você não conseguia resistir ao impulso de levar a bola para a calçada e começar a narrar seus próprios movimentos com ela como um locutor entusiasmado - "Domina a número cinco, atenção, vai marcar, dá de charles... goooooool! Sensacionaaaaaaal!" - e ao mesmo tempo queria prolongar ao máximo aquela sensação do couro novo, intocado, em suas mãos. A compulsão de sair chutando ganhava. Depois de dois dias de futebol na calçada, a bola nova estava irreconhecível. O couro ia empalidecendo como um doente. E a primeira coisa que desaparecia era o que depois mais perdurava na memória, o cheiro novo. Nenhum prazer do mundo se igualava ao do cheiro do couro de uma bola de futebol recém-desembrulhada latejando em suas mãos. (Ainda não se tinha descoberto a revistinha de sacanagem.) Imagino que o nosso antepassado que pela primeira vez meteu a mão no buraco de uma árvore e depois lambeu o mel nos seu dedos tenha tido uma sensação parecida, a de que a criação é difícil mas dadivosa, e há mais doçuras no mundo do que as que se têm em casa. Quase tão bom quanto o cheiro da primeira bola era correr atrás dela, mesmo que só fôssemos craques na nossa própria apreciação ("Que lance, senhoras e senhores!", eu gritava, mesmo que só estivesse fazendo tabela com a parede.) Correr atrás da primeira bola é o que nós todos continuamos fazendo, tamanhos homens, até hoje. E continua bom.

Meu coração

   No fim, desculpe a literatura, é tudo entre nós e o nosso coração. Depois do dito e do feito, depois da paixão e da razão, depois da vida das células e da vida social e da vida cívica e das idas e das voltas, e da História e da biografia, e do que os outros fizeram conosco e do que nós fizemos com os outros, é tudo entre nós e ele. Segundo fora. Nós e ele. A única conversa que vale, a única intimidade que conta.
   O coração não tem nada a ver com nada, fora a sístole e a diástole e a sua fisiologia medíocre. Ele nem nos daria conversa, se não dependesse de nós, se não precisasse da embalagem, dos terminais e de alguém que cuide dele. tudo que lhe atribuem, do mais romântico ao mais calhorda, é falso. Trata-se de um mero músculo, e de um músculo egoísta, que só quer saber da sua própria sobrevivência. Da qual, por uma cruel coincidência, depende a nossa.
   Fala-se do "time do coração". Mentira. O coração não tem time. O coração não se interessa por futebol. Só hoje, por exemplo, o meu se deu conta de onde estava. Paris, Nantes, Marselha ou qualquer outra cidade, é tudo o mesmo para ele, desde que ele tenha um lugar seguro onde poss bater e cuidar da sua vidinha. Mas de repente ele se deu conta e pediu satisfações. Para onde eu o tinha trazido?
   Expliquei. A França, a Copa, o Brasil, os jogos, a beleza dos jogos...
   Meu coração não quis ouvir falar da beleza dos jogos. Ele não tem nenhum senso estético. Quis saber que história era aquela do morte súbita.
   - É uma maneira nova de decidir as partidas que acabam empatadas. Há um prorrogação e o primeiro gol quem marcar ganha.
   Meu coraçao nao quis acreditar.
   - Quer dizer que, se esse time pelo qual você torce, como é mesmo o nome?
   - Brasil.
   - Quer dizer que se o Brasil empatar com algum outro time, tem prorrogação com morte súbita?
   - É...
   - Você sabia disso quando me trouxe pra cá?
   - Sabia.
   - Você deliberadamente me trouxe a um evento em que eu posso parar de repente, mesmo não tendo nada a ver com isso? Não era para ser um campeonato de futebol, um esporte, um divertimendo, enfim, nada que me dissesse respeito?
   - Desculpe. Eu tentei substituí-lo pelo distanciamento crítico, mas...
   - Só me diz uma coisa. Se a prorrogação terminar sem que ninguém marque o gol, o que acontece?
   - Aí decidem nos pênaltis.
   - Me leva pra casa.
   - O quê?
   - Me leva pra casa imediatamente. E pare de me envolver nos seus divertimentos. Você parece que não tem coração.
   - Mas nada disso vai acontecer com o Brasil. Prorrogção, pênaltis, nada disso.
   - Quase aconteceu contra a Dinamarca!
   - É, mas...
   - Me tira daqui!

Apresentação

Olá pessoal, neste novo blog irei postar bastante crônicas sobre futebol, futebol e mais futebol que o grande escritor Luis Fernando Veríssimo escreveu! Irei dividir estas histórias em quatro capítulos.
Espero que gostem! (:

Créditos: Time dos Sonhos - paixão, poesia e futebol (Luis Fernando Veríssimo)