quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Vermelho

    Paulinho da Viola descreveu a primeira vez que viu desfilar a Portela. Aquele azul que passou em sua vida não era do céu, não era do mar. Era um azul só delas, da Portela e da sua lembrança. Um azul exclusivo, inexplicável, único, que nunca mais seria o mesmo. Mas não era o azul que jamais se repetiria - era a sensação de vê-lo pela primeira vez. A mesma sensação que eu tive na primeira vez em que fui a um jogo de futebol, um Grenal, e vi entrar em campo o Internacional. O vermelho da sua camiseta não era do sangue, não era do fogo. Eu nunca tinha visto um vermelho assim antes, e nos sessenta anos seguintes nunca o vi da mesma maneira outra vez. Um vermelho só reproduzível na memória. Um vermelho inaugural, inédito, como o de um rio de lava no começo do mundo. E o meu coração se deixou levar.
    A família tinha voltado a Porto Alegre depois de dois anos passados nos Estados Unidos, e eu, com nove anos, precisava escolher um time como forma de reintegrar nos hábitos da terra. O Inter era o time mais em evidência no estado na época. Ganhava todos os campeonatos e era apelidado de Rolo Compressor, tal a sua vantagem sobre os outros. Escolhi o time vencedor. Mas não foi só isso. Nos Estados Unidos, eu tinha contribuído para a vitória das forças aliadas contra as forças do Eixo, matando japoneses e alemães aos milhares nos meus jogos de guerra solitários. O Grêmio, naqueles tempos, só aceitava jogadores brancos, e sua torcida era quase toda branca. Não escolhi torcer pelo Inter para continuar defendendo a democracia por outros meios, sem minha metralhadora, nem por qualquer manifestação precoce de consciência social - mas que era bom torcer pelo time dos negrinho contra o time dos alemão, era. Ainda mais que os negrinho ganhavam sempre.
    A política racial do Grêmio acabou com a contratação do Tesourinha, que fora o maior ídolo do Internacional e meu maior ídolo pessoal. Hoje os times e as torcidas de Inter e Grêmio se equivalem em variedade racial e social. Mas, quando fui ao meu primeiro Grenal, Tesourinha ainda era do Inter (depois passou pelo Vasco) e o Grêmio ainda era o time dos alemão. Mas foi tamanho o deslumbramento com minha primeira visão das camisetas vermelhas entrando em campo que esqueci um fato importante daquele jogo: o Grêmio ganhou o Grenal e foi campeão de 1946. Sempre convivemos assim: uma torcida esquecendo ou tentando diminuir as glórias da outra. Nunca reconhecemos o campeonato do mundo vencido pelo Grêmio em Tóquio, por exemplo. Era outra competição, outro mundo. Tóquio passa a valer alguma coisa a partir de agora.
    E já posso imaginar aquele vermelho entrando em campo, em Tóquio. Um vermelho como nenhum outro, um vermelho primal como o das minhas lembranças de menino, mas inaugurando outra história.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O time do boteco

    A cena se incorporou ao folclore do futebol brasileiro. Escolhido para ser o técnico da seleção brasileira que disputaria a Copa do Mundo no México em 70, João Saldanha convocou a imprensa e anunciou o time. Não quem seria convocado, não quem seria experimentado - o time, os onze. Apenas repetiu, oficialmente, o que diria numa mesa de bar, se lhe pedissem a sua seleção. Outros na hipotética mesa escolheriam outras seleções, mas ninguém hesitaria. Todos teriam um nome para cada posição, e uma seleção pronta. A do Saldanha só ficou na história porque, com a mesma naturalidade com que a anunciava no bar, anunciou para o mundo, como técnico. Dando inveja, claro, a todos os outros escaladores de boteco do país, que tinham a sua seleção óbvia mas não tinham o poder de convocá-la.
    Muitos mitos da seleção de 70 não resistiriam ao tempo, ou foram desmentidos ou foram convenientemente esquecido. Saldanha disse ou não disse que cortaria o Pelé porque o Pelé era míope? Largou a seleção porque os militares no poder, a começar pelo presidente Médici, estavam se intrometendo demais no seu trabalho, ou não foi bem assim? Não importa. O que deixou mais saudades - porque nunca tinha acontecido antes e nunca mais se repetiu - foi a simples anunciação como primeiro ato da sua regência, do time que ele tinha na cabeça, do goleiro ao ponta-esquerda. O time do Zagallo que ganhou no México não foi o do Saldanha, mas isso também não interessa. Entre o boteco e o fato, entraram as circunstâncias, essas coisas serpentinosas em que a gente vive se enrolando.
    O triste é que hoje não existe mais a escalação espontânea. A escalação de boteco nunca foi tão mal informada, e irrelevante. O futebol mudou no campo (nem ponta-esquerda existe mais) e fora dele. Ninguém consegue acompanhar o que os jogadores brasileiros fazem no exterior para merecer a seleção - ou saber que interesse oculto existe por trás de uma convocação. O Brasil de 70, com Médici e tudo, era um pouco mais íntimo. E na falta do time mais ou menos óbvio, na falta do time do boteco, o que se vê é isto: uma seleção em constante experimentação, com um elenco para cada ensaio.
    Não se deve valorizar demais a sabedoria popular no futebol. Muitas vezes os favoritos do público não convêm à seleção, e há exemplos recentes de implicâncias do público que deram certo. Mas a escalação do boteco valia pelo menos como uma referência. Bem ou mal, o boteco sabia. Hoje, o boteco nem desconfia.