Paulinho da Viola descreveu a primeira vez que viu desfilar a Portela. Aquele azul que passou em sua vida não era do céu, não era do mar. Era um azul só delas, da Portela e da sua lembrança. Um azul exclusivo, inexplicável, único, que nunca mais seria o mesmo. Mas não era o azul que jamais se repetiria - era a sensação de vê-lo pela primeira vez. A mesma sensação que eu tive na primeira vez em que fui a um jogo de futebol, um Grenal, e vi entrar em campo o Internacional. O vermelho da sua camiseta não era do sangue, não era do fogo. Eu nunca tinha visto um vermelho assim antes, e nos sessenta anos seguintes nunca o vi da mesma maneira outra vez. Um vermelho só reproduzível na memória. Um vermelho inaugural, inédito, como o de um rio de lava no começo do mundo. E o meu coração se deixou levar.
A família tinha voltado a Porto Alegre depois de dois anos passados nos Estados Unidos, e eu, com nove anos, precisava escolher um time como forma de reintegrar nos hábitos da terra. O Inter era o time mais em evidência no estado na época. Ganhava todos os campeonatos e era apelidado de Rolo Compressor, tal a sua vantagem sobre os outros. Escolhi o time vencedor. Mas não foi só isso. Nos Estados Unidos, eu tinha contribuído para a vitória das forças aliadas contra as forças do Eixo, matando japoneses e alemães aos milhares nos meus jogos de guerra solitários. O Grêmio, naqueles tempos, só aceitava jogadores brancos, e sua torcida era quase toda branca. Não escolhi torcer pelo Inter para continuar defendendo a democracia por outros meios, sem minha metralhadora, nem por qualquer manifestação precoce de consciência social - mas que era bom torcer pelo time dos negrinho contra o time dos alemão, era. Ainda mais que os negrinho ganhavam sempre.
A política racial do Grêmio acabou com a contratação do Tesourinha, que fora o maior ídolo do Internacional e meu maior ídolo pessoal. Hoje os times e as torcidas de Inter e Grêmio se equivalem em variedade racial e social. Mas, quando fui ao meu primeiro Grenal, Tesourinha ainda era do Inter (depois passou pelo Vasco) e o Grêmio ainda era o time dos alemão. Mas foi tamanho o deslumbramento com minha primeira visão das camisetas vermelhas entrando em campo que esqueci um fato importante daquele jogo: o Grêmio ganhou o Grenal e foi campeão de 1946. Sempre convivemos assim: uma torcida esquecendo ou tentando diminuir as glórias da outra. Nunca reconhecemos o campeonato do mundo vencido pelo Grêmio em Tóquio, por exemplo. Era outra competição, outro mundo. Tóquio passa a valer alguma coisa a partir de agora.
E já posso imaginar aquele vermelho entrando em campo, em Tóquio. Um vermelho como nenhum outro, um vermelho primal como o das minhas lembranças de menino, mas inaugurando outra história.
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