terça-feira, 1 de novembro de 2011

O time do boteco

    A cena se incorporou ao folclore do futebol brasileiro. Escolhido para ser o técnico da seleção brasileira que disputaria a Copa do Mundo no México em 70, João Saldanha convocou a imprensa e anunciou o time. Não quem seria convocado, não quem seria experimentado - o time, os onze. Apenas repetiu, oficialmente, o que diria numa mesa de bar, se lhe pedissem a sua seleção. Outros na hipotética mesa escolheriam outras seleções, mas ninguém hesitaria. Todos teriam um nome para cada posição, e uma seleção pronta. A do Saldanha só ficou na história porque, com a mesma naturalidade com que a anunciava no bar, anunciou para o mundo, como técnico. Dando inveja, claro, a todos os outros escaladores de boteco do país, que tinham a sua seleção óbvia mas não tinham o poder de convocá-la.
    Muitos mitos da seleção de 70 não resistiriam ao tempo, ou foram desmentidos ou foram convenientemente esquecido. Saldanha disse ou não disse que cortaria o Pelé porque o Pelé era míope? Largou a seleção porque os militares no poder, a começar pelo presidente Médici, estavam se intrometendo demais no seu trabalho, ou não foi bem assim? Não importa. O que deixou mais saudades - porque nunca tinha acontecido antes e nunca mais se repetiu - foi a simples anunciação como primeiro ato da sua regência, do time que ele tinha na cabeça, do goleiro ao ponta-esquerda. O time do Zagallo que ganhou no México não foi o do Saldanha, mas isso também não interessa. Entre o boteco e o fato, entraram as circunstâncias, essas coisas serpentinosas em que a gente vive se enrolando.
    O triste é que hoje não existe mais a escalação espontânea. A escalação de boteco nunca foi tão mal informada, e irrelevante. O futebol mudou no campo (nem ponta-esquerda existe mais) e fora dele. Ninguém consegue acompanhar o que os jogadores brasileiros fazem no exterior para merecer a seleção - ou saber que interesse oculto existe por trás de uma convocação. O Brasil de 70, com Médici e tudo, era um pouco mais íntimo. E na falta do time mais ou menos óbvio, na falta do time do boteco, o que se vê é isto: uma seleção em constante experimentação, com um elenco para cada ensaio.
    Não se deve valorizar demais a sabedoria popular no futebol. Muitas vezes os favoritos do público não convêm à seleção, e há exemplos recentes de implicâncias do público que deram certo. Mas a escalação do boteco valia pelo menos como uma referência. Bem ou mal, o boteco sabia. Hoje, o boteco nem desconfia.

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